13 de jul. de 2011

Dica do Xaxim: Echolyn - Mei (2002)


Existem poucos discos que considero obras-primas ou quase perfeitos. Como meu gosto musical não é tão eclético quanto eu gostaria (mesmo que conforme o tempo passe meus preconceitos venham se tornando cada vez menores), a grande maioria entre minha pequena relação de discos quase perfeitos pertence a álbuns gravados por bandas inglesas durante a década de 70, período que considero como o auge da música em geral.

Queen II, minha dica anterior, é um desses poucos álbuns e que não é lá muito reconhecido (ou pelo menos não como eu acho que deveria ser). Escrever sobre meus “discos de cabeceira” que todo mundo conhece me parece chover no molhado e não pretendo aqui discorrer sobre os mesmos, exceto por um álbum que pouca gente conhece. Este disco não foi gravado na década de 70 e também não é obra de uma banda inglesa; trata-se do sensacional Mei, da banda americana Echolyn.

O grupo surgiu no começo da década de 90, quando gravou um ótimo álbum homônimo de estreia com tons modernos e influências de Gentle Giant. O segundo álbum, Suffocating the Bloom, que também é bom, chamou a atenção de uma grande gravadora (Sony Music) através da qual lançaram o terceiro álbum, As the World, em 1995. Ao invés de ceder às pressões da gravadora por um som mais acessível, os caras lançaram um álbum com som ainda mais complexo, o que levou ao término do contrato e ao fim da banda.

Cinco anos depois, eles retornaram de forma independente com o bom álbum Cowboy Poems Free, em que nitidamente puderam se expressar da forma como queriam gravando ótimas músicas que variavam entre tons climáticos e verdadeiras pauladas na moringa, sempre com tons modernos mesclados com passagens mais complexas. Apesar do ótimo resultado, foi no disco seguinte que eles tomaram o passo mais ousado e lançaram um disco conceitual com apenas uma música.

Mei é uma música difícil de ouvir, dada sua duração. É cada vez mais difícil nesta vida moderna arrumar 50 minutos para prestar atenção a uma única música sem ser interrompido, ainda mais se tratando de uma obra complexa, com muitas variações e repleta de detalhes que vão se revelando a cada audição. Mas o aspecto que mais me impressiona é outro: assim como é um verdadeiro desafio para o ouvinte curtir a obra, que dirá gravar uma peça tão longa e com tanta qualidade.

Apesar de ser fã de progressivo, no meu caso isto não acontece por causa das longas durações das músicas, coisa comum no gênero. Na verdade, acho que há certo exagero por parte de muitas bandas que privilegiam a duração de uma obra em detrimento da composição, resultando muitas vezes em passagens intermináveis e sem sentido. E é justamente isso que adoro em Mei: não há enrolação ou “enchimento de linguiça”. Há, sim, uma obra coesa, inspirada e que alterna momentos instrumentais e cantados, calmos e nervosos, simples e complexos, sinfônicos e roqueiros, tudo isso em várias combinações diferentes dosadas na medida certa e que não enjoam.

A obra trata de uma epopeia representada por uma montanha russa de sentimentos, que vão desde a tristeza pela separação entre pessoas que se gostam, passam tanto pela conformidade quanto pelo desespero causados por momentos de solidão (por vezes transformado em raiva generalizada) e terminam na calma certeza de que dias melhores virão. Todas estas passagens, que se alternam ao longo do disco, são interpretadas de forma soberba tanto do ponto de vista musical quanto vocal, representado pelo guitarrista Brett Kull nas passagens mais calmas e pelo vocalista Ray Weston (que neste disco assumiu também o baixo) nas passagens mais agressivas.

Outro ponto de destaque no disco é que não há muito espaço para grandes solos, embora eles ocorram em trechos curtos de vez em quando. Os arranjos enfatizam o trabalho em conjunto, coisa rara e difícil de fazer, ainda mais considerando uma obra tão longa. Com isso, todos os integrantes da banda aparecem bem e merecem destaque. Além dos já citados, o tecladista Chris Buzby manda muito bem com o uso de ótimos timbres (especialmente os de órgão), além do competente baterista Paul Ramsey, que aparece bem ao longo de todo o disco.

A banda faz uso de trechos e melodias que se repetem ao longo da música e que conferem coesão à obra, mas mesmo este truque, repetido com maestria pelas grandes bandas do gênero, é feito de forma discreta e (mais uma vez) sem espaço para exageros. O resultado de todas as características citadas faz com que Mei seja um disco surpreendente, que tem lá sua dose de originalidade e genialidade, brilhante. Para mim, é um disco obrigatório para qualquer coleção de rock.

Até!

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